[artigo] The Jimmy Choo experience

Ana Cristina Matos
especial para o Blog da Gôra

As alemãs da pequena ex-capital Bonn não são lá muito fashionistas, e foi por isso que, naquele sábado quase gelado de outono, tive de encarar a estrada até Colônia para a inauguração da parceria Jimmy Choo-H&M.

Não tinha tido sucesso nas tentativas anteriores. A coleção Comme des Garçons foi lançada em uma quinta-feira, e quando cheguei, na sexta, só encontrei alguns poucos restolhos em tamanhos PPP ou GGG e aquela famigerada conga, que alguns mais empolgados se apressaram em considerar super cool, mas que eu achei um lixo – só vendo de perto para entender o nível do trash. Com Matthew Williamson não me empolguei – até queria o vestido de pavão, mas na hora H me bateu uma preguiça de encarar filas de dobrar quarteirão por uma mísera pecinha…

Confesso que Jimmy Choo foi diferente, me deu tesão. Afinal, sapatos são sempre sapatos, e Tamara Mellon sabe fazer pisantes lindos com um certo toque rebelde que eu curto muito nas minhas produções, mas com precinhos que cabem pouco no meu orçamento. Então decidi que, naquele sábado, tentaria a sorte. Imaginei que a abertura, às 10, seria bastante tumultuada, por isso optei por dormir um pouco mais (era sábado….) e chegar às 12. Não me importaria com as roupas – eu queria mesmo era pôr as mãos nos sapatos e bolsas.

Foi o que fiz quando cheguei. Passei direto pelas roupas, que estavam no centro da loja gerando alguma comoção, e segui o burburinho, até descobrir o cercadinho onde estavam protegidos os sapatos. Encostei na lateral da grade, observando o tumulto na parte da frente, tentando entender como tudo aquilo funcionava. Umas dez mulheres estavam do lado de dentro, e outras centenas se espremiam na parte de fora. Alguns homens acompanhantes se perguntavam “who the hell is Jimmy Choo?”, outros riam de suas bonecas cedendo à baixaria de disputar a pontapés um lugarzinho perto da entrada.

Comecei a desistir. Provavelmente teria de passar horas imprensada para chegar perto da abertura da grade, o calor humano em volta do cercadinho era infernal (lembrem-se, eu estava vestida para o frio) e, para completar, um dos bofes mais galhofeiros filmava toda a disputa com seu celular. Virar celebridade no youtube por conta de um par de sapatos? Oh, please, eu preferia continuar vivendo com a minha dignidade. Me contentei em observar.

E então ouvi a moça do microfone anunciar “o tempo acabou, por favor, comecem a se retirar”. E as Becky Blooms iam saindo do cercadinho com caixas empilhadas nos braços e apoiadas pelos queixos, sorrisos enormes, brilho nos olhos. As do lado de fora começavam a se empurrar, a se espremer, a se estapear e pisotear. Logo eu também estava sendo empurrada. Não sabia em que direção aquela onda estava indo, mas era impossível não seguir. Eu poderia tirar os dois pés do chão e continuar indo, a multidão simplesmente me carregava. Foram alguns segundos (ou minutos?) agoniantes, até que finalmente o movimento parou. E eu me dei conta de que havia estacionado exatamente em frente à entrada do cercadinho.

Não acreditei no que havia acontecido. To hell with my dignidade, eu agora estou aqui, na portinha, na boquinha da garrafa! Mais dez minutos e essa multidão me cospe dentro do cercadinho. Dez minutos apertada, amassada, espremida como um bagaço de laranja, pela horda de mulheres que pressionava contra a grade. Muito mais próxima de gente estranha do que eu jamais gostaria de estar. WTF, alguém soltou um pum?!? Eu estava ficando verde… Mas era tão apertado que era impossível desviar e me livrar daquela situação. A única saída agora era a entrada.

E, ao final de dez minutos, conforme esperado, fui vomitada no cercadinho. Consegui alcançar as prateleiras, onde imediatamente comecei a procurar todos os pares 36 e 37 que podia ver. Infelizmente não eram muitos – todos os sapatos em numeração pequena já tinham sido arrematados e só sobravam os pés grandes – mas consegui alguns. Completei a feira com uma bolsa e alguns acessórios para presente, e deixei o cercadinho com meu sorriso, brilho nos olhos, caixas apoiadas pelo queixo.

Já fora, procurei um canto sossegado para sentar e experimentar os sapatos. Amei as sandálias vermelhas de verniz e as sapatilhas. Detestei as gladiadoras pretas de tachinhas, com zíper emperrado e costuras mal acabadas. Deixei as gladiadoras no banco e comecei a rumar para o caixa. Alguns passos depois, uma olhada de leve para trás e as gladiadoras já tinham sumido. Em uma fração de segundos alguém que não entrou no cercadinho passou a mão na sorte grande. Tudo bem, eu entrei. E saí com tudo o que eu queria.

A caminho de casa, uma mensagem de texto no meu celular. Uma amiga, que passava o fim-de-semana em Amsterdam, contava: “Just had the Jimmy Choo experience. Been pushed and squeezed like a f#*&@ing  lemon. Were you lucky to get to the shoes?”

Oh, yeah, was I lucky…

*Ana Cristina é minha irmã, que mora na Alemanha. Ela adora moda, como eu. E está sempre antenada nessas parcerias de grandes-estilitas-para-magazines-de-fast-fashion, como eu.

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